Esta é a primeira encenação fora do Uruguai do texto Mi Muñequita, de autoria do dramaturgo, diretor e ator Gabriel Calderón. O impacto causado pela montagem, também dirigida pelo autor, e a receptividade de público e de crítica foram imensas, tanto que a encenação uruguaia esteve em cartaz por quatro anos em Montevidéu e países de língua hispânica.
O texto trata das relações violentas no seio de uma família de classe média. A protagonista é uma menina de dezesseis anos, numa relação perversa com seu pai e sua mãe. A mãe, o pai e a menina recebem o tio como agregado. O tio, que já fora namorado da mãe - mas que foi preterido por ela, que escolheu o irmão - volta para se vingar deste, tendo uma relação incestuosa com a sobrinha. A boneca representa o duplo de menina. Essa mediadora – a boneca em princípio inanimada e mais tarde animada, ora manipulada, ora manipuladora – funciona como o duplo da personagem, é a voz reveladora das tensões familiares. A personagem do mordomo, nesta montagem interpretado por um ator-cantor e denominado “apresentador”, costura as cenas com comentários que não estabelecem dependências cronológicas ou causais
A direção desta encenação se inspirou no melodrama latino e nos programas televisivos de auditório para parodiar a tragédia. A montagem adota o humor negro e o tom de farsa sugerido no texto para deflagrar os horrores desta família através de fragmentos de cenas, canções e violentos encontros entre as personagens.
A narrativa não-linear e a substituição do discurso por um ritmo frenético que a fragmentação das cenas buscará imprimir, têm a intenção de desconstruir o modelo de instituição familiar e descobrir gradualmente a violência contida nessas relações pela perspectiva da menina e sua boneca.
O abandono da psicologia e a escolha da caricatura, da farsa, do riso distorcido do grotesco, a experimentação com o espaço e suas fronteiras, a interpelação direta ao público, problematizam as formas de interpretação teatral e tornam ambígua a relação entre atores e espectadores, entre a zona da ficção e a zona da realidade.
Como as relações familiares e os crimes oriundos delas já são o cerne do espetáculo, a montagem se propõe a ampliar a percepção do espectador, ao abordar esses crimes através do distanciamento e por ângulos distintos.
A montagem lança mão de recursos cenográficos sintéticos, estabelecendo no trabalho do ator o centro da encenação. Os atores têm o desafio de atuar sobre a tênue linha do tragicômico, e distanciar-se de seus personagens através de cenas coreografadas e musicadas. A intenção é revelar o caráter espetacular da história, construindo o show de horrores que envolve os personagens.
Mi Muñequita é uma comédia dramática, burlesca e grotesca, com a dramaturgia descarnada, torpe e sexual que caracteriza o trabalho de Gabriel Calderón.
Había una idea que me daba vuelta en la cabeza hace buen tiempo: una obra que fuera un espiral de muertes. Cuando una muerte se da lugar, otras le suceden inmediatamente. La hipótesis del campo morfo-genético: Según esta hipótesis sucede lo siguiente: todas las veces que el miembro de una especie aprende un comportamiento nuevo, cambia el campo morfológico o productor para la especie. Este cambio es, al principio, apenas perceptible, pero si el comportamiento se repite durante cierto lapso de tiempo, su resonancia mórfica afecta a la especie entera. En otras palabras o desde otra perspectiva, se podría decir: cada vez que un individuo aprende a hacer algo nuevo, este algo, será más fácil de aprender para los demás individuos de la especie, dada la existencia de este campo mórfico que se crea cuando aparece la repetición de comportamientos. Esta matriz invisible es un campo morfogenético. Pensé mi obra, como si existiera este campo morfogenetico no entre los individuos, sino entre los hechos de una misma naturaleza. Diría entonces, una vez que una muerte aparece en un determinado modelo de organización (una familia por ejemplo) será más fácil para otras muertes aparecer en diferentes partes o lugares del mismo modelo.
Gabriel Calderón
